Essa, também, não é muito recente...Se bem me lembro, é de 2003.

A janela se entrega a mim,
Quer abrir os braços,
Encher-se de lua...
Trazer-me o feitiço que insiste...
Desejo... desejo... desejo...
Sussurro das negras asas,
Voz trazida pelo vento...
- Preciso do seu convite!
Acato a ordem,
E o convido a entrar.
Ele surge diante de mim!
Tento uma resistência,
Ofereço-lhe o vinho.
Enquanto encho as taças,
Arrisco um desafio:
Meu olhar, meu domínio...
Depois do gole,
Um breve sorriso
Desobediente, aproxima-se...
Ele quer mais, e veio buscar.
Toma-me em seus braços,
Na entrega do abraço,
Meus mansos olhos refletem a verdade:
Seu olhar me domina.
Sou o cálice...
Sirvo-me aos lábios sedentos,
Sedento, ele penetra meu sangue,
A bebida desejada.
Um arrepio percorre meu corpo,
Estendo a mão,
Deixo-me levar...
Deslizo pela branca face da noite.
O uivo, o grito...
Animais no cio.
Minha boca acaricia os caminhos...
Suas mãos me descobrem,
Fazem latejar a pele,
Tecem a teia quente...
Seu corpo no meu,
Seu corpo sou eu.
Sua boca molhada sacia minha sede,
Embriagando-me de vermelha vida.
Empresta-me a eternidade...
Ao primeiro raio de sol, repousamos.
Agora sou filha da lua!
Quando a noite se aproxima,
Desperto faminta,
Quero a carne, o vício,
O rubro sangue, a chama líquida...
Licor do prazer,
Senhor que me escraviza.
Sandra Febbe



S ilencioso vazio..., estranhamente, meu dizer nada quer.
A ndarilha sem rumo - também apaixonada pela vida -
N avego, porém, na incômoda calmaria
D o mar que me oculta...
R osto coberto: sou segredo.
A mor, pra mim, vem sem identidade.

F antasma de apagadas falas,
E m suas páginas, nunca pude ser, nem dizer.
B rinde-se às marcas deixadas nas areias,
B rinde-se ao calor do ontem...
E sperança de um amanhã sem saudades.

C avaleiro: minha versão para o tão feminino e pouco original “ad eternum”.
A lva é minha pele... antítese do pecado.
S onhei-me insuperável, mas meu lugar não é privilegiado.
A noite esconde meus urros... – fantasioso ineditismo.
R ompem-se os laços da minha pretensão – repetitiva armadilha.
E stupidamente, achei-me o superlativo de quente.
J anela sem paisagem..., lá fora, sussurra a garoa fina...
O uço e, perdidamente desgostosa, respondo:
S audade? Acho que nunca deixei!

05/03/2006
"Enquanto os homens exercem seus podres poderes..."

Poder atingido, sangrado...
As mãos petrificadas diante dos olhos mortos
Não querem deixar ver a morte cotidiana...
Favelas, vilas, cortiços...
Mães, pais, chacinas.
Assassinatos diários do pão, da dignidade...
Vida de valor vencido.
Crianças nas feiras recolhem os restos,
Lixos, banquete servido no asfalto quente
Àqueles cuja miséria tortura a cada dia.
Mortos sem flores, sem pompa,
Perdidos na solidão anônima...
Gargantas sedentas...
O grito calado... sufocado pela dor do nada
Sem nome, sem endereço, sem posição,
No farol, na esquina, no sertão,
Nas filas, no campo...
A vida morre todos os dias e
As mãos nem buscam cobrir os olhos...
Habituados aos socos, pontapés e tiros
E à insignificância do corpo sem estrelas nem brasão.
Sandra Febbe

O texto a seguir foi escrito em um momento de dor extrema...há oito anos atrás...Foi o momento em que me deparei,pela primeira vez, com o que se confirmou com o tempo, sempre nos decepcionamos...A vida não nos poupa nunca!

O QUE RESTOU

Caminho para não sei onde.
Atordoada, vou quebrando...
Estilhacei!
Meus estilhaços,
Tão revoltadamente feridos,
Escapam e machucam,
Penetram a alma dos que me cercam.
Sou amargura,
Pedaços do que acreditei ser.
Espalho fel e ácido.
Dissolvendo-me, inundo pessoas,
Vou deixando marcas,
Transformei-me em chaga,
Contamino, transmito meu veneno.
Exponho o pus,
Talvez mais,
Sirvo no cálice de minha boca
Meus próprios restos,
Excrementos do dissabor.
Sou a sombra,
Arrasto para a escuridão,
Quero gerar as trevas,
Cegar a todos,
Arrancar-lhes a face sorridente



Extirpando a alegria,
O lado demente.
Rasgar a paixão.
Fazer lágrimas descerem,
Encherem o mundo,
Levando-o ao naufrágio.
Arrasar, queimar corações.
Nem deixar destroços da insana emoção.
Propagar a fria razão,
Deliciando-me com gemidos, gritos alucinados...
Vendo corpos decrépitos rastejando,
Mergulhados na lama fétida
Que vaza de minhas veias.
Olhos em chamas
Mirando o próprio espelho,
Onde vou estar,
Culpando a todos
Pela dor do massacre,
Apontando meu dedo acusador:
VOCÊS GERARAM O MONSTRO QUE SOU!


Sandra Febbe
Os textos abaixo foram escritos há 5/6 anos atrás...Há muito tempo não os lia...Agora, não só li, mas senti vontade de torná-los públicos. É incrível como algumas emoções se repetem...Espero que gostem.

Ficar... sempre... eternidade da dor.
Expectativas vencidas...
Olhos doentios,
Boca escancarada no riso sórdido...
Prazer, espumante prazer ...
O veneno que amortece, ilude...
A língua lança lembranças,
Palavras, letras, sons do passado... ilusão.
Olhos febris,
Da boca escorre o brilho ácido...
Minha alma sorve, consome o líquido.
A bebida ácida molha meus lábios, fere a garganta...
Penetrando... machucando a dor...
Dando-lhe prazer,
Dissolvo-me...
Minha dor é só uma lágrima calada pela escuridão.

Sandra Febbe
UNIDOS DO BRASIL

Colombinas, passistas, carnavalescos...
Todos fogem do próprio enredo,
Monótono e infeliz samba do silêncio
Dia-a-dia, dia-a-dia...
As fantasias são vestidas
Máscaras para desmascarar a verdade
Aquilo que são...
Seriam sem a hipocrisia.
Astros e estrelas decadentes.
Esconderijo da fome,
Refúgio da miséria.
Gritem os loucos!
Chorem os abandonados!
Levantem o estandarte,
Porta-bandeiras da injustiça!
Despimo-nos de nossas vergonhas
Na tentativa de fascinar o mundo...
Tornamo-nos patéticas figuras.
Diante do espetáculo,
O mundo ri de nossa aparente alegria...
Ou será demência?
Luxo, brilho, ostentação...
Humilhantes alegorias terceiromundistas.
Somos gigantes mal nutridos,
Consumidos pelo fogo de nosso próprio circo.
Viramos as tristes cinzas
Espalhadas por barracos,
Favelas, viadutos, presídios,
Prédios e mansões.
Invadimos as ruas e avenidas...
É a realidade...
Inimizades, ganância, corrupção,
Violência, descaso, solidão.
Gritem os esquecidos!
Aplaudam os famintos!
Soltem fogos!
Atirem!
Bebam e se joguem pelas calçadas...
Ninguém vai reparar.
Por quatro dias fomos reis e rainhas,
Fizemos a comédia...
Temos o resto do ano de espetáculo garantido,
Espaço para a resignação
Neste palco da tragédia
De um povo cujo herói
É pura imaginação.

Sandra Febbe

LOUCA FANTASIA

Anjo ou demônio ?
Quem é você
Que se instala de repente,
Sem pedir licença,
Dando-me alegria e dor ?
Menino atrevido,
Intrometido, querido!
Mansamente explora minha alma,
Tira minha máscara...
Quem é você ?
Veio de onde? Por quê ?
Doçura ou loucura ?
Não consigo pensar !
Sinto sua falta,
Procuro a lógica,
Mas onde ela está ?
Garoto atrevido,
Perdido, querido...



Anjo ou demônio ?
Quem é você
Que ousa me atormentar ?
Povoa meus sonhos,
Me enche de vida,
Me faz estilhaçar.
Quero a razão!
Onde ela está ?
Perdida, esquecida...
A vida a pulsar.
Como você se atreve ?
Homem perigoso,
Manhoso, tão querido...
Quem é você ?
Anjo ou demônio ?
Fantasia ou loucura ?

Sandra Febbe





ENGANO
Enganei-me !
Fui enganada pelo momento,
Enganoso acreditar...
Deixei-me enganar!
Necessário engano...
Talvez o instante.
Felicidade enganadora,
Ardilosa figura mentirosa.
A obra engana o autor,
Ilusório carcereiro do instante fixo da realidade.
Enganei-me !
Minha obra não era real,
Muito menos, fixa.
Tolos grãos de sonhos...
Enganosas partículas de esperança !
A realidade cria,
Destrói a efêmera busca
Que escoa pelo corredor estreito
Transformando o futuro em passado longínquo,
Enganando o presente,
Roubando-lhe a chance de ser.
Seria talvez.
Mas...
Enganou-se e já se foi.

Sandra Febbe




Cartas Embaralhadas (Sandra Febbe)

Façam seus jogos, senhores!
A mesa está aberta para as apostas!
A roleta girando...
Os dados rolando...
Cartas embaralhadas no pano verde.
Aumentam-se as apostas.
Jogam-se as fichas.
Aposto tudo!
Faça seu jogo!
Dobro minhas apostas!
Última chance, senhora!
A roleta girando...
Dados rolando...
Cartas jogadas no pano verde...
O blefe, os risos, as apostas lançadas.
Minhas fichas... minha vida...
A roleta girando...
Os dados rolando...
Minha vida em jogo.
Apostei todas as fichas!
Dobrei! Arrisquei!
E agora?!
A roleta girando...
Os risos, sorrisos, vícios...
Os dados rolando...
O passado, o futuro, a certeza...
Apostei tudo!
Dobrei! Arrisquei!
Perdi!
Façam seus jogos, senhores!
Vozes, palavras, sons...
O tilintar da confiança.
A roleta parou.
Preto 21!!
Apostei vermelho 18...
Os dados... as cartas...
A vida embaralhada rolando...
As fichas acabaram!
Tudo perdido!

Desacreditar (Sandra Febbe)

Você se foi,
Sem avisar,
Sem se despedir,
Afastou-se de mim,
Seguiu seu caminho.
Olhei ao meu lado,
Buscando encontrá-lo,
Abriu-se o vazio.
Não sei quando,
Desconheço o momento,
O instante em que a ilusão
- Ah! Ela novamente! –
Despiu-se, mostrando-se
Tão-somente real.
Outra armadilha,
Outra decepção,
A dor já nem sente...
De tão sofrida
Ela se fez esquecida.
Na presença viva do desacreditar.
Calo-me diante do silêncio.
Sei que ele se foi
Sem saber se, um dia, ele chegou.




QUANDO NÃO SE QUER A VERDADE

(Sandra Febbe)

Búzios, cartas,
Simpatias, superstições...
Como se houvesse resposta.
O anel da sorte,
A roupa certa,
O perfume de bons fluidos,
As músicas mágicas...
Quanta idiotice!
Ignorância!
Busquei...
Não a resposta,
Tão clara, nítida diante de mim...
Não desejada, rejeitada .
Nos absurdos, procurei...
Um sim para a ilusão.
A verdade não queria,
Límpida, óbvia ...
Fechei os olhos,
Cerrei os ouvidos,
Esqueci o racional.
Fui criança teimosa,
Desejosa de um brinquedo.
Outra resposta?
Nem pensar.
Tarô, feitiçaria...
Tudo valia,
Menos o óbvio “não”.
Acorde!
Você foi só ilusão!



Rosto Vazio
(Sandra Febbe)

Acaricio um rosto vazio, sem face.
Fantasia sem identidade.
Braços, abraços, sorrisos anônimos.
Os olhos, a boca e o desejo se espalham,
Escapam e, como o perfume, evaporam...
Pequenas gotas de ilusão.
Garoa fina de uma saudade.

Acaricio um rosto sem face.
Forte, vivo e belo...
Na insanidade.
Diluída forma na razão.
Ídolo, herói amedrontado,
Reflexo da verdadeira luz,
Apenas uma encenação de vida.

Acaricio um rosto vazio, sem face.
Antiga imagem da sedução.
Covarde!
Nem persona, nem grandeza...
Nada!
Melhor assim, o rosto vazio,
transparência sem forma,
Sem dor, sem a desculpa...

Acaricio um rosto vazio, sem face.
Matéria bruta...
Espera mãos limpas,
Escultoras da expressão,
Imprimir-lhe marcas,
Dar a vida,
Encontrar o SER...




Uma criança correndo...

Acompanho teu olhar em direção a ela.

Estranha sensação...

Olho, com amor, o amor impresso no sorriso sonhador.

Por rápidos segundos, visito outro momento...

Passado longínquo?

Futuro distante?

O quando e onde parecem se dissolver...

Vejo... sinto nós três:

Você, nossa criança e eu...

Somos felicidade,

Somos amor.

Chego a ouvir a pequena voz,

Ela sorri em nossa direção...

Teu olhar é meu presente!

O sorriso encontra o teu abraço estendido...

Recosto em teu braço,

Dou à minha mão o afago infantil...

Momento cristalizado,

Volto ao instante concreto...


O desejo desconhece o impossível,

Despreza a razão do tempo.

Não sei se foi,

Não sei se será,

Não sei quando,

Não sei onde.


Só sei que parte de você me habita,

E parte de mim vive em você.


08/08/04
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